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À minha volta, a bruma seca turva meus olhos. O barco da vida segue à deriva, no mar da existência. Não consigo controlar o leme do barco; a bússola não funciona, deixando-me à mercê das ondas, ora furiosas, ora calmas. A noite fechada e coberta de nuvens impede a minha orientação pelas estrelas: tudo é escuridão.
Não há céu, não há mar, não há vida. Chego a porto desconhecido, não há pessoas, não há casas, o nada absoluto ao meu redor.
Sinto a carícia de uma mão quente em meu rosto. Desperto de um pesadelo. Mas onde estou? O lugar é desconhecido, mesmo acordado, ainda me sinto perdido.
A mão desliza pelo meu rosto, acordo totalmente e vejo em minha frente dois olhos calmos, verdes, o verde da esperança que se perdeu no tempo. Será um anjo? Será uma mulher? Mulher-anjo ou anjo-mulher? Difícil definir aquela presença. Mas sinto que meu metabolismo, saindo da letargia de pesadelo, começa a reagir à presença do anjo-mulher.
Meus sentidos criam nova vida. A visão deslumbra-se ante aquele ser desconhecido. O olfato percebe um forte sensual e suave. O paladar sente o gosto doce da pele da mão, quando ela escorrega em meus lábios. A audição capta sons musicais que me convidam a uma nova existência. O tato descobre um corpo macio, firme, convidativo.
O anjo-mulher me convida:
- Vem comigo!
Levanto-me pela mão que me ampara e guia. Renasci. Todos os sentidos estão ativos. A libido manifesta-se, ante aquela visão. Os olhos do anjo-mulher me dominam, hipnotizam, mas não me tolhem a consciência.
Vejo novamente o sol, aquecendo meu universo interior, fazendo resplandecer os cabelos do anjo-mulher.
Sigo os passos deste ser. Tenho mil perguntas, descobrir é preciso, responder não é preciso. Arrisco:
- Quem és tu, anjo ou mulher?
- Serei o que tu queiras que eu seja!
- De onde vens?
- De teus sonhos mais profundos.
- Então não és real?
- Sou. Tu me materializaste.
- Posso seguir-te?
- O quanto quiseres.
- Qual teu nome, anjo?
- Cora. |